Bem vindos..

A todos aqueles que decidiram acompanhar os artigos postados neste blog, em primeiro lugar, quero agradecê-los. Também aproveito para desejar que a semelhança de um escultor, vocês possam utilizar-se das idéias e adorná-las com a vossa criatividade modelando-as e utilizando-as no palco da vossa realidade. Não há limites para se escrever e compor pensamentos. Espero que de alguma forma, a mensagem apresentada através dos artigos postados possa continuar ecoando nos vossos corações.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

"Lei e Graça 1"

A graça tem sido mal compreendida nos círculos cristãos. Existem aqueles que na tentativa de identificar a graça colocam-na em oposição à lei. A graça de Deus não milita contra a Lei, que por sinal também se origina em Deus. O Todo-poderoso não se contradiz! A graça não é um contra-senso! É um paradoxo! Paradoxo não é sinônimo de incoerência ou contradição, o significado desta palavra indica uma “aparente contradição”, em outras palavras, parece, mas não é. Para um leigo, é fácil polarizar graça e lei, colocando-as em extremos e em alamedas contrárias. A graça é o adorno da lei fornecida ao ser humano, formando nesta revelação não um princípio ditador teocrático, mas um sistema de leis que beneficie a comunidade judaica, alvos primários da lei registrada no Pentateuco.

Na lei, não vejo o meu Deus como um tirano, uma deidade farisaica que ata jugos pesados e fardos insuportáveis a um povo que caminhava na arena de um deserto causticante, árido e infrutífero. Não consigo visualizar na revelação da lei um Deus déspota que escraviza o povo com um código de regras. Quando medito na lei, o primeiro pensamento que vem à minha cabeça é a graça que Deus compartilha com o homem ao apresentar leis para serem seguidas e preceitos para serem obedecidos. Vejo graça na lei! A lei foi escrita em tábuas de pedra e assinada pela graça.

Pense nos destinatários da lei: o povo de Israel. Através de José, aproximadamente 70 hebreus desceram ao Egito, uma terra que distava de Canaã em aproximadamente 500 quilômetros, depois de acomodados e instalados, esta comunidade cresceu e alcançou índice de nação (Ex 1.4). Durante 430 anos os descendentes de Abraão estiveram no Egito e durante um bom período de tempo foram humilhados, rechaçados e escravizados. O Egito movido pelo capitalismo e ambicionando sempre o primeiro lugar na economia vigente, fez dos hebreus seus escravos; e pior do que isto, os transformou em animais de carga. Enquanto os hebreus se desgastavam para trazer conforto e riqueza para os egípcios, este país ostentava destaque internacional através dos grandes projetos de construção civil, a saber, as enormes pirâmides, cartões postais do Egito que permanecem imponentes e majestosas até os dias de hoje.

Estando no Egito, consciente e inconscientemente os hebreus foram feitos prisioneiros do pensamento, da política e da religião que lá vigorava. Depois de libertos, os hebreus permaneciam cativos do pensamento egípcio. Era um cativeiro sem algemas, prisão sem ferrolhos, cadeias invisíveis, que no campo das idéias, aprisionavam os hebreus. Eles saíram do Egito, mas o Egito não havia saído deles. Permaneciam reféns! Por este motivo, durante a peregrinação do deserto, os costumes praticados no cativeiro, vez por outra, reacendiam-se na mente, à semelhança de um palimpsesto, a escrita antiga não havia se apagado completamente. A sociedade egípcia que desenvolvia técnicas de irrigação e canalização, que praticava embalsamento, permanecia com um cabresto ideológico sob os hebreus, transformando-os em escravos apesar de libertos, em dependentes apesar de autônomos, em um povo manquejante apesar de caminharem no deserto, em uma nação sem emblema, insígnia e brasão, simplesmente despersonalizados. O povo hebreu era um reflexo do povo egípcio! Era necessário um êxodo ideológico.

Deus movido pela sua majestosa graça investe em um povo ferido, em uma nação cicatrizada com as marcas da dor. Movido pela graça, Ele resolve conferir a este povo uma identidade nacional que vise desvencilhar o povo para sempre dos vestígios do Egito. Neste cenário, Deus compartilha com o povo leis que marcariam a ética internacional. Os dez mandamentos foram um precioso código confeccionado na esfera divina para ser vivenciado na esfera humana. O Todo-poderoso, gratuitamente oferece à sociedade hebraica uma bússola-legal que além de brindá-los com independência no campo das idéias e libertá-los de uma vez por todas de um passado que como uma aguilhoada incomodava-os, Deus também revela todo o seu cuidado, graça e amor no conteúdo das leis compartilhadas.



Deus transmitiu para Moisés 10 mandamentos. Os quatro primeiros se referem ao relacionamento com Deus e os seis restantes se referem ao relacionamento com o próximo. Deus desprovido de egoísmo, não pensa apenas no lugar central que Ele deve ocupar na adoração dos hebreus, mas pensa também na unidade que deve marcar aquela sociedade. Os hebreus não poderiam se fracionar através de disputas individuais, deveriam conviver uns com os outros de forma respeitosa e isto constituía um grande desafio. Deus deseja ver uma sociedade coesa, expurgadora do mal, do furto, do adultério, do assassinato, da difamação contra o próximo e tantos outros males que trazem rachaduras nas bases sociais. A marca da nação de Israel deve ser a temperança nos relacionamentos, a suavidade na execução diária, o banimento da “eu-dolatria” e a construção da comunhão horizontal e vertical, isto é: com o homem e com Deus. No ato de compartilhar as leis, vejo os vestígios da graça divina. Donald MacLeod declarou: “A concessão da Lei é parte da dispensação da aliança da graça” [1].


[1] BLANCHARD, John. Pérolas para a vida: pensamentos para sermões e palestras. São Paulo: Edições Vida Nova, 1993. p.228.

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